Antes de içar a lâmina, o algoz suplica ao condenado: "Você me perdoa?"

I want you for U.S. Army

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Moscou II

Meus amigos,

Continuemos nosso transcurso fotonarrativo pelos interstícios da capital russa.


Moscou II


Em uma das extremidades do corredor (polonês) da estação de metrô "Parque da Vitória",
os russos transformam sua história em destino manifesto
No painel abaixo, Kutúzov prepara-se para a capitulação de Napoleão 


No extremo oposto do corredor (polonês), o 09 de maio soviético contra a invasão nazista coroa a Rússia, contumaz imperialista, como a vítima do poderio europeu


Daqueles momentos históricos, em plena Praça Vermelha, que gostaríamos de ter vivido
(Mal sabiam os camaradas Ivans e Ekatierinas que as artérias siberianas do Gulag não seriam interrompidas; apenas se tornariam mais cosmopolitas com os prisioneiros de guerra)


Dispensa por excesso de contingente


Eis o corredor polonês que torna causais as duas macro-invasões sofridas pela Madrasta Rússia


O Arco do Triunfo contra Napoleão secundado pelos tataranetos mal pagos dos antigos soldados do tzar


De fato, a arquitetura periférica secunda os modelos centrais
(Tanto pior para os "Ns" napoleônicos que margeiam o Rio Sena inusitadamente derrotado)


Já fiz esta pergunta por aqui, mas a História não se cansa de reiterá-la
Que seria do estatuário urbano sem a contumácia da guerra?


Que seria do imaginário coletivo sem as batalhas?


Que produziu a Suíça pacífica e pragmática em seus séculos de neutralidade mercenária?


Em contrapartida, que dizer da opulência renascentista da Itália sob o punho dos Bórgia e suas guerras civis?


O subsolo desvelado dos burgueses que apostam no jockey


Por isso Eisenstein postulou, em sua teoria da montagem cinematográfica, a interação necessária entre o conteúdo fílmico e seus sequiosos espectadores


"Não, não", diz o paulistano malufista que votou no Coronel Ubiratan, "eu prefiro ser ladeado pelo Rio Pinheiros"


O Arco da Vitória sobre Napoleão entre os verdadeiros vencedores - dois dos bancos de investimentos mais importantes da Rússia


Quase não venta na Moscou de prédios baixos e horizonte amplo


Calma, Ivan, calma, logo, logo haverá algo de novo no front
(Lembre-se das saudações de aço de Putin para a irmã-quintal Geórgia)


A Polônia, a República Tcheca, a Hungria, a Bulgária, a Letônia, a Estônia, a Lituânia, entre muitos outros satélites, sentem calafrios atávicos só em imaginar onde fica o quintal da Rússia


Quem já não se sentiu assim?


Seriam os ortodoxos mais ou menos piedosos que os católicos?
A princípio, a compaixão dita que o apoio para os pés do Crucificado demonstra caridade. No entanto, se pensarmos que, dessa forma, a Paixão do Nazareno se prolonga, entrevemos prenúncios de Sade em meio à Ortodoxia


Uma síntese, a meu ver cabal, do pós-modernismo


"Papai, papai, quem é esse árabe, paizinho?"


Decorrência de um dos aforismos mais controversos de Cristo:
A Deus o que é de Deus...


... e a César tudo o mais


Seria possível a unificação dos polos para um Éden terreno?


Versão soviética - mais suave e lúdica - do Counter Strike


Conheçam Andrei Pávlovitch Tcherniev, soldado durante a Guerra do Afeganistão
(Quase consegui uma medalha militar de Andrei em troca de minha surrada camisa do Che; o lance é que Kolia, o pequenino, deu 2 rublos para o antigo soldado hoje coxo, então nosso escambo se invalidou...)


Vladimir Ilitch Ulianov, também conhecido como Lênin


Provável comentário de um historiador imparcialmente americanófilo:
"Lênin e os primórdios da suástica"


O pândego Púchkin


Sincretismo religioso e/ou atavismo de um ex-dominado:
o Cristo Ortodoxo russo lembra o mongol Gêngis Khan


Tese


Antítese atual: UFC e/ou MMA


Síntese
I want you for MY U.S. Army


Porque, de fato, todos os caminhos levam a Roma


Primeiro eu conheci a Rua Arbat por intermédio das provocações de Antônio Abujamra
Quer conhecê-la assim também?


Ciclope


Saudade da 25 de março


Brecht já dissera que o problema não está em roubar um banco, mas em fundá-lo
Eis que a atual indústria cultural tem uma idéia para transformar a antiga antítese em uma síntese rentável:
Bertold Brecht, poeta pró-proletariado, primeiro cliente do
BANCO LUMPESINO


Será que encontraremos Chagall por aqui?
(Ao menos já sabemos onde está sua paleta)


Yves Lacoste já dissera que a arquitetura serve, antes de mais nada, para fazer a guerra
Faltou apenas especificar que a guerra é apenas o limite de intercursos violentos que podem assumir diversas facetas
Imaginemos, então, meus amigos, uma festa em que Putin e Berlusconi convidam suas diversas assessoras cortesãs para um brinde


Para todos aqueles que não seremos convidados para as bacantes acima descritas, Hollywood disponibiliza o Clube da Luta
(Veja que algum nostálgico se lembrou de titio Ióssif Gulag aí embaixo...)


Quem tenta entender a atração humana pela violência parte de um pressuposto amplamente datado
Ora, apenas a modernidade dos "direitos do homem e do cidadão" pôde pressupor um cotidiano pacífico
É curioso pensar que lascas de lanças rudimentares foram encontradas nos esternos dos primeiros hominídeos, fato que nos faz considerar se Talião pode, algum dia, ser efetivamente superado


Eis o ápice da austeridade na Rua Arbat


Eis uma representação anacrônica da dominação
Bons tempos em que o explorador ainda tinha face
Hoje, onde está o algoz?
(As cartilhas dogmáticas do marxismo operário insistem em desenhar capitalistas gordos munidos de dentes pontiagudos; ora, quando pensamos que executivos da Sony mal têm tempo e priapismo para superar o mero assédio às secretárias; quando descobrimos que executivos da Panasonic se distinguem simbolicamente ao implantarem a primeira ponte de safena aos 45 anos, entrevemos que o Deus Trabalho subsumiu não apenas os marujos, mas também os capitães da finada indústria)


Uma síntese para a ressentida Guerra Fria: o perdão rentável


"Vai, Flávio, já chega da paleta de Chagall, sobretudo porque o cromatismo tá cada vez mais asséptico"
Talvez o interlocutor sinta saudade da suntuosa Avenida Paulista que condena a Casa das Rosas a uma culpa aristocrática apenas por existir para além do horror burguês


Eis uma síntese para a arte que tenta dizer não à indústria cultural


Pergunta: Qual a função da varanda quando o General Inverno a aconchega a -45ºC?


A Arbat de fato conflui para where the rainbow ends


O salmão...


e o pastel prenunciam...


... Marc Chagall ao ar livre


O que é que poderia refrear a ânsia de Cleópatra por mais poder senão mais ração humana?
(A mandatária já sentia tédio após enfiar adagas de ouro no seio de suas mucamas)


Conheçam, diretamente da ficção dostoievskiana, o Homem do Subsolo


Mas, meus amigos, vejam só: quem é vivo sempre aparece!
Eis que nos deparamos com ninguém mais, ninguém menos que
MIKHAIL GORBATCHOV
(O guia de um museu de São Petersburgo, professor de História desempregado, chegou a me dizer, quiçá com algum ressentimento soviético, que o antigo premiê da Madrasta Rússia "fez o que fez por pertencer à maçonaria")


Meus amigos, em verdade, em verdade lhes digo: esperem até percorrermos os interstícios da noite russa


Conheçam Ricardo Flaviovitch Vassoleroff, meu filho


Curiosa e simplista dicotomia que contrapunha capitalismo e socialismo, como se as formas diversas de administrar a mesmíssima produção pudessem transformar, essencialmente, os modos pelos quais todos e cada um de nós conduzimos nossas vidas


Ou será que soviéticos, que nem ao menos tinham o direito de ir e vir pelo Império, podiam pescar durante o dia e fazer crítica literária à noite?


E quanto ao nosso capitalismo periférico?
(Cada vez mais vivenciado pelos barões do centro do mundo)


Dizem os nostálgicos que os vencedores só fazem ironizar os vencidos
Meus amigos, ou bem me engano, ou então os capitalistas se gabam por uma vitória de Pirro
Senão, vejamos: no Brasil, sobrevoar a city de helicóptero subentende também a impossibilidade de um livre fluxo entre a massa ressentida
E a Europa? Onde o tempo livre, já sem sentido algum, ainda tinha mais duração, agora chegamos à maximização das satisfações pessoais: o tempo livre torna-se pleno, total; o desempregado, à base da dieta da luz do sol, estreita a margem de lucro para duas refeições diárias
(É claro que a famosíssima "globalização" envolve apenas a integração econômica; quanto a compartilhar as tubulações de esgoto, "não, não, o Brasil está definitivamente preparado para uma crise vindoura")


Ao menos a eugênica indústria cultural não precisou se lamentar pelas cotas aos afrodescendentes para fazer seus panfletos em Moscou


Self made man


Do drink it!


Da solidão
(Retrato do artista quando velho)


Atavismo stalinista
(O belo nunca deve se esquecer de que o Gulag o espreita a todo o momento)


Apreensão deveras, já que...


... sempre há um canastrão


Subsolo das Memórias

6 comentários:

  1. Agradeço sua rica participação. Abraços, Augusto

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  2. Nossa gostei muito!!parabéns!!!

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  3. Muito bacana. Pelas fotos do local, aposto que sao religiosos e bastante conservadores, ou moralistas. Mas me parece que sabem preservar a cultura e respeito, o que eh muito, pois mostra identidade forte. Não parece que seja cosmopolita, não? Valew!!!

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  4. Puxa que las parina!
    Que fantástico!
    Estou maravilhado...
    Kd Genebra nessa lista????

    Abs!

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  5. Muito obrigado, Carlos!

    Ainda não conheço Genebra, mas futuramente estarei lá - cidade que abrigou Voltaire e o nascimento do surrealismo!

    Seja sempre bem-vindo ao Subsolo das Memórias.

    Um abraço,

    Flávio Ricardo

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  6. Carlos, respondo agora ao seu primeiro comentário.

    Na verdade, a URSS militou arduamente contra a influência da Ortodoxia entre os russos. Ainda assim, há, de fato, uma religiosidade difusa e não praticamente entre os russos, algo que, por aqui, conhecemos bem. O lance é que a Igreja na Rússia está profundamente ligada com a noção de pátria, de nacionalidade, e aí o sincretismo entre poder temporal e espiritual torna-se fortíssimo.

    Os russos não são, via de regra, cosmopolitas, não. Aliás, são bastante xenófobos. Agora, quando um intelectual se estabelece para criticar a russa, acaba, coercitivamente, por se tornar cosmopolita, uma vez que o país não o aceita.

    Porém, Carlos, é preciso matizar a questão do cosmopolitismo: como país pertencente à periferia do capitalismo, a Rússia, assim como o Brasil, sempre plasmará intelectuais relacionais, isto é, autores cuja formação depende da Europa Central para a própria afirmação periférica. Um cosmopolitismo estrutural, se você assim quiser.

    Um abraço,

    Flávio Ricardo

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