Antes de içar a lâmina, o algoz suplica ao condenado: "Você me perdoa?"

I want you for U.S. Army

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Todo encontro marcado é casual

Meus amigos,


A palavra e a imagem, a palavra imaginada, imaginação, imagem in ação.

TODO ENCONTRO MARCADO É CASUAL - PARTE I





TODO ENCONTRO MARCADO É CASUAL - PARTE II



TODO ENCONTRO MARCADO É CASUAL - PARTE III



TODO ENCONTRO MARCADO É CASUAL - PARTE FINAl




Grande abraço a todos,


Bazárov

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Paralelas que se cruzam bem onde o infinito é corpóreo


Meus amigos,


Voltemos a Moscou. Há pouco mais de um ano, a guerra na Geórgia me fizera refletir sobre as diferenças entre os militarismos russo e brasileiro. A Rússia ateniense, o Brasil espartano. Devemos conter nossos hilotas. O exército brasileiro? A polícia. O Capitão e Sandro, ambos do Nascimento. Nascimento do ocaso. Paralelas que se cruzam bem onde o infinito é corpóreo.


Grande abraço a todos vocês,


Bazárov


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Moscou, 15 de agosto de 2008


Meus amigos,



Os primeiros serão os últimos;
os últimos,
os primeiros (Cristo a contrapelo, ou pior, escalpelado).

Por um acaso vocês viram a imagem do presidente da Geórgia – escoltado por seus asseclas – a fugir das bombas errantes? “Tempestade de aço” (Hans Magnus Enzensberger, Guerra Civil). E a profecia se fez presente em meio à ausência dos “prados com flores de orquídeas flamejan-tes” (Marinetti, Manifesto Futurista).


Em termos factuais, meus amigos, eu, aqui em Moscou, não devo saber muito mais do que vocês. A não ser que vocês se interessem por notícias requentadas da Agência Reuters; ou por outra – notícias sob o punho de Putin.

Vladimir (nome paroxítono)

Putin.

Logo que cheguei a Moscou, um de meus primeiros encontros foi com a personagem Vladimir Putin. Ele discursava em frente ao Museu de História Russa, ao lado da estátua de Júkov, o general de Stálin na Segunda Guerra Mundial. Eloqüente discurso peripatético, palavras ressoam enquanto caminha, marcham, marcham soldados. “Eu vi como os olhos deles reluziam a cada dis-curso do Führer” (Enzensberger).


Demorei a notar que se tratava de um sósia, um duplo.

Numa lan house perto de onde moro, há um calendário-metonímia: cada mês do ano porta uma diferente foto (faceta) do onipresente presidente – hoje Primeiro-Ministro.


Vocês imaginariam um calendário desses no Brasil, meus amigos, com 12 fotos de Luiz Inácio?

Os russos e sua secular
relação transcendente
com os governantes.
Mãe Rússia,
Tsar Paternalista.
Stálin,
homem de aço,
guia genial dos povos.

Uma das fotos mostra Putin sob um quimono, descolado lutador de judô. Wazari. Noutra, Putin, em seu jet-ski, expande o traçado das fronteiras russas sobre as pacíficas águas de um lago – um drops para quem se lembrar da paródia brasileira para tal cena: Collor, aquilo roxo, a fazer cooper na Casa da Dinda – “tô com o cooper feito!”

Quem conhece a Matriúchka?


Feita de madeira, a boneca tipicamente russa representa a fertilidade. Uma grande Matriúchka contém em seu bojo várias outras Matriúchki menores.

Qual a figura mais matriuchkizada atualmente, meus amigos?


– Путин (Putin) – responde o ligeiro comerciante já pronto para me empacotar uma Patriúchka pelo quíntuplo do preço.

9 de maio, Dia da Vitória Russa na Segunda Guerra Mundial.

Vitória Russa.

A historiografia russa tende a privilegiar a atuação soviética tanto quanto a Europa Ocidental e os Estados Unidos proclamam a unívoca vitória anglo-saxã.


Comentários efusivos:


– Há muitos anos não desfilávamos nosso poderio militar pela Praça Vermelha!


Poucos meses depois, agora, o conflito com a Geórgia.


– Os Estados Unidos não vão nos cercar, não vão! Eles não podem instalar mísseis no Mar do Norte – eis o teor de um desjejum pós-balada junto a alguns colegas russos.


Polônia, República Tcheca, Ucrânia – insólitos parceiros dos EUA: módicos investimentos-cassino em troca de estratégicas bases militares. Matricidas, Pai Putin!

– Se cortarmos o suprimento de gás para a Europa – os próprios russos sentem a ambigüidade eurasiana ao se referirem à Europa como um lugar todo outro –, se cortarmos o suprimento de gás, ora, eles morrerão de frio!


– Mas vocês dependem dos investimentos europeus, não dependem?


Olhos como ogivas, o russo desfere:


– Mas não dependemos da Ucrânia...


Dínamo de Kiev estático em campo.


– Tchetchênia? (Oxítona em russo).


– Esses caucasianos querem a independência, ora, mas não se sustentariam sozinhos nem mesmo por um ano. Em que consiste a economia deles? Armas, drogas e – me alicia com um olhar cafetino – prostitutas.

– Bush invade o Iraque, condena Saddam Hussein à morte, morrem inúmeros, ora, e agora ousa dizer que nós, russos, cometemos limpeza étnica? Onde houver russos sofrendo, lá estará nosso Exército (Putin put it out).


Bush invade o Iraque. Metonímia figura o cotovelo dolorido de Putin. Ippon.


“Uma nação zomba da outra e ambas têm razão”. (Arthur Schopenhauer, Aforismos para a sabedoria na vida).

Meus amigos, a meu ver, o cinismo flerta profundamente com o Espírito do Tempo. Quem estranharia, hoje, uma expressão como Utopia Negativa? Que alma lúcida – ébria de escárnio sobre si mesma – não esboçaria um riso rasgo ressentido diante da epígrafe do Velho – então Jovem – Marx: “Quando, no curso do desenvolvimento, desaparecerem todas as distinções de classe e toda a produção concentrar-se nas mãos da associação de toda a nação, o poder público perderá seu caráter político. O poder político propriamente dito é o poder organizado de uma classe para oprimir a outra. Se o proletariado em sua luta contra a burguesia é forçado pelas circunstâncias a organizar-se em classe; se se torna, mediante uma revolução, classe dominante, destruindo violentamente as antigas relações de produção, destrói com essas relações as condições dos antagonismos de classe em geral e, com isso, extingue sua própria dominação como classe. (...) Em lugar da antiga sociedade burguesa, com suas classes e antagonismos de classe, haverá uma associação na qual o livre desenvolvimento de cada um é a condição do livre desenvolvimento de todos” (Manifesto Comunista).


Meus amigos, nossos tempos (auto-)irônicos me fizeram subver, da penumbra do subsolo moscovita, um agregado insólito em meio à sinfonia dissonante dos estilhaços esvoaçantes. A destruição vivifica. Já ouço os brados: “Como? Eis um diletante, um apologeta da guerra, um esteta do sangue, mas sem nenhuma escara!” Meus amigos, por favor, sejam menos belicosos. Trata-se de um agregado cruel – o rompimento de nossa inércia cotidiana por meio de um insólito derramamento de sangue que nos chama a atenção para algo que – enfim! – está acontecendo. Não contamos a ninguém, flagelamo-nos deveras por determinados pensamentos bárbaros, mas a palavra guerra, se-cre-ta-mente, não nos traz um epílogo, mas uma epígrafe:


– Que rapaz aguerrido!


– Aquela mulher é uma batalhadora!


– Vamu arrebentá cu jogu rapaziada!


“Marcha, soldado, cabeça-de-papel,
quem não marchar direito
vai direto pro quartel” (Inocente cântico infantil).


Inocente população civil. Homens de bem, homens de bens.


– É preciso matar um leão por dia!


“Homens de preto, o que que você faz?
Eu faço coisas que assustam o Satanás!
Homens de preto, qualé sua missão?
Entrar pela favela e deixar corpo no chão!”

Alguém entre vocês, meus amigos – e por um mero acaso, claro – já se pegou ressoando o Capitão Nascimento?

Capitão Nascimento (Tropa de Elite).


Sandro Nascimento (Ônibus 174).


Aguda síntese poética por parte do diretor de ambos os filmes, José Padilha.


Roberto Nascimento, a ordem, e Sandro Nascimento, a margem, não poderiam, a priori, representar espectros mais distantes na teia social. Teia viúva negra.

Negro.
Lumpen.
Candelária:
sobrevivente.
Sobra vivente.
Sandro Nascimento.

Negra.
Farda.
Candelária:
sobre viventes.
Sobras viventes.
Capitão Nascimento.

O que lhes poderia ser contíguo, meus amigos, além do negro coldre de um a resvalar a negra têmpora do outro?


Padilha sintetizou a perversa estrutura social brasileira a partir de leituras imanentes de dois prismas em extremos supostamente opostos: aquele que executa a lei e o executado.


Ônibus 174 procura traçar a genealogia de Nascimento, o Sandro. Mãe degolada diante de seus olhos – pálpebras reclusas captura do momento, lembrânsia. A rua sem teto lar. Ressentimento.


Tropa de Elite procura traçar a genealogia de Nascimento? Não, de André Matias, o substituto. André, negro como Sandro; André, pobre como Sandro. Marginal? Policial. Ressentimento.


Como podemos entender trajetórias tão díspares, meus amigos? Duas figuras profundamente estigmatizadas, meus amigos, duas figuras a figurar caminhos paralelos que inexoravelmente se cruzarão em um determinado pé – coturno – do morro.


Numa entrevista para o Roda-Viva, o escritor Paulo Lins, autor de Cidade de Deus, chegou a chocar os civilizados jornalistas:


– Como você vê a escalada de violência nas metrópoles bra-sileiras, Paulo?


– Violência? Que violência?


– Como que violência, Paulo?!


– No Brasil, gente, não há de fato violência. Se a violência brasileira se espraiasse na mesma medida da pobreza, o Brasil já seria outro – para melhor ou para pior. Há muito mais pobreza do que violência no Brasil, muito mais.

O que é o crime, meus amigos?


Wild Wilde subverte civilizadamente:


“Na sociedade, há apenas uma classe que pensa mais em di-nheiro do que os ricos, e é a dos pobres” (A alma do homem sob o socialismo).


Visto de maneira abstrata – desde que não sejamos as vítimas –, o crime contumaz representa um deslocamento de mercadorias de X para Y – seja diretamente dinheiro, sejam quaisquer outros objetos passíveis de solvência. Nesse sentido – calma, meus amigos, já, já retornaremos ao âmbito jurídico-moral; por ora, bom, precisamos do cientificismo utilitário –, nesse sentido, o crime em si nada mais é do que uma ação excepcional de troca, tendo em vista sua ocorrência diminuta caso comparado com o número ordinário de trocas cotidianas. De acordo com essa curva de raciocínio, os excluídos são meramente aqueles que fazem trocas de forma tangencial.


A propriedade é um roubo? Pelo prisma acima, meus amigos, Proudhon se transforma em propagandista da ordem.


Para nosso alívio, meus amigos, voltemos ao âmbito jurídico-moral. Pois bem: o Capitão Nascimento só faz sentido nesse momento, meus amigos. Se voltarmos à abstração anterior, veremos que o fato de as trocas serem majoritárias ou minoritárias não implica diferença qualitativa, mas meramente quantitativa. Mais ou menos, de modo algum melhor ou pior. Trata-se do livre trânsito, do livre fluido – a coqueluche (neo)liberal. No entanto, no momento em que damos cor à nossa análise, vislumbramos Sandro Nascimento Capitão. O fluido marginal de trocas já passa a ser criminalizado, meus amigos, e daí decorre toda uma série de estigmas. Podemos então entender o policial como aquele que impede a ocorrência da fluidez marginal das trocas – interrompamos o encontro singelo da espada de Dâmocles com a cabeça de Sandro por um breve momento, meus amigos, e deixemos que o beijo lábil de Judas de nós aproxime o cálice: nesse momento, meus amigos, se unirmos a análise macroscópica ao âmbito moral – que alívio! –, veremos justamente que o policial visa coibir a inserção marginal dos marginais na rede de trocas.


Viúvas negras.


Passemos agora ao âmbito jurídico-moral propriamente dito. Mais: tentemos sondar, ainda que brevemente, o desdobramento da norma na fração (fragmento) mínima da sociedade, o indivíduo. Mais ainda: restrinjamos nosso olhar pra as duas figuras em questão – Sandro Nascimento e André Matias.


Sandro e André, de acordo com os dados (dádivas) que nos são fornecidos, provêm de um mesmo contexto social. No entanto, meus amigos, um deles corrobora enquanto o outro corre embora. Ambos parecem dizer “eu sou aquele que tudo nega”, mas somente um contraiu o pacto mefistofélico. Parece-nos até mesmo lógico que alguém procure se rebelar numa situação de extrema inanição – se bem que o “de pé, ó vítimas da fome”, da Internacional Comunista, guarde algo de escarninho em seu bojo. Famélicos de pé? Não só de pé como em luta. Uma maioria, ora, logo, rebeldia, insubordinação, insurreição. Não? Não. Tal raciocínio escorreito não dobra a primeira esquina concreta: quem é o primeiro a respeitar a ordem? O pobre. Como, Bazárov?! Impossível! Os dados mostram que o maior número de crimes ocorre entre as camadas mais pobres da população. Não questiono. Mas, meus amigos, pergunto: o crime altera a ordem? Repito: a ordem é alterada pelo crime? Aliás, pergunta literária a contrapelo: quem nunca sorriu ao ver Robin Hood cumprir suas missões?


O pobre, por ser pobre, não altera a ordem, a estrutura da sociedade. Pode eventualmente atrapalhar sua dinâmica normal – daí a imputação: va-ga-bun-do!, bandido!, safado!, salafrário! O normal remete à norma – por numeroso que seja, o crime representa um desvio padrão. Um jovem que recebe uma benesse, como André – “que consegue entrar na melhor faculdade de Direito do Rio de Janeiro” –, meus amigos, pode ser oriundo de uma família tão desagregada quanto a de Sandro Nascimento. No entanto, à falta de um seio familiar acolhedor, meus amigos, à falta de uma mão que afaga, à falta de um sentido, ora, pode-se abrir uma ferida decisiva para a vida de ambos. Eis o nó górdio que enforca as mais diversas teologias em suas supostas tendências democráticas: trata-se de escolhidos ou todos somos iguais?


André tem aptidões diferenciadas. Quando estimulado – tomo emprestado o vocabulário behaviourista dos próprios experimentos sociais –, quando estimulado, André responde satisfatoriamente, apresenta resultados, destoa dos demais. Sandro é a regra, André, a exceção. Ambos são filhos da ausência, ferida inequívoca. No entanto, meus amigos, a ferida ulcerosa trabalhará a lógica do ressentimento de maneira distinta nos dois casos: para André, meus amigos, a sociedade abre possibilidades, ainda que exíguas e tortuosas. Matias não terá as mesmas oportunidades de um jovem branco, ainda que seja mais capaz. Justamente por sofrer na pele todos os estigmas, passa a se desenvolver no substituto uma lógica tautológica de contínua superação de si próprio, uma ininterrupta lógica teleológica de meios e fins, meios e fins, meios até o fim: ser bem-sucedido, custe o que – quem – custar. André sabe – porque os olhares cortantes rasgam-lhe o amor próprio – que não será um igual, mas a vitória representa, enfim!, o afago etéreo que o seio lhe negou. A sociedade opressora, meus amigos, o Leviatã hobbesiano, uma face de olhos ocos, vazios, mas com reconhecimento objetivo – “não só aos meus olhos” (André), mas aos olhos de outrem: sou Capitão do Batalhão de Operações Especiais, Tropa de Elite da Polícia Militar. Críticas à sociedade e ações marginais, meus amigos, passam a representar, para André, um verdadeiro parricídio – escarros sobre a única face que lhe diz: tu és!


Sandro, o antípoda. Sua ferida ulcerosa punciona, ele grita, ruge – não é todo-adaptado. Seu ódio não encontra alvo, seus olhares rajadas não conseguem aglutinar uma vítima. Pergunta do subsolo: quem disse que ele quer destruir? Mas, Bazárov, ele destrói, ele rouba, pode até ser que já tenha matado! Ora, como é que você diz que ele não quer destruir? Meus amigos, rebato a contrapelo: e se a vingança tiver por alvo não aquilo que ele eliminou – o fim da ação por si só –, mas antes a reação, a própria punição? Como?! Não, jamais! Nós maximizamos o prazer, jamais buscamos a dor. Mas, meus amigos, para Sandro, o ressentimento talvez trabalhe Tânatos a galope: a punição, meus amigos, o encontro com a norma, ora, pode derradeiramente apre-sentar ao infrator o vislumbre concreto de uma mão que dele se aproxime, um pai etéreo a lhe colocar limites – limites que, contraditoriamente, lhe dão um norte, devolvem-no ao útero, fazem-no sorver o seio. Delinqüirá, contínua e ininterruptamente, até o encontro que não mais o separe do pai – “já não vai haver demora, já não vai haver demora” (Apocalipse 10, 6).


Ambos filhos da ausência, ambos profundamente ressentidos – e ressentindo. Seus alvos têm uma teleologia errante, meios que se confundem com o fim.


Sandro vence ao morrer – se ataca.


André mata ao vencer – defende.


Quem vive para derrotar o inimigo, precisa do oponente sempre vivo (Nietzsche).


Sandro, inimigo de si mesmo, vive até que morre. Morre.


André, amigo de si mesmo, vive até que morrem. Morrem. Morrem. Morrem.


Paralelas que se cruzam bem onde o infinito é corpóreo.


Corpo, corpse, corporação.


Um grande abraço em armistício e sem ressentimentos,


Russo